Estou triste. Na verdade, desesperançado. Não absolutamente, mas com relação a mim mesmo. Muitas idas e vindas, vindas e idas, e paradas e retomadas, e novas idas sem vindas, ou vindas sem idas, enfim, o desconexo ir e vir de quem não sabe aonde ir ou de onde vir fizeram-me cansado. E triste.
Desde o ano passado, minha saúde declinou grandemente. O cansaço tornou-se praticamente contínuo, cedendo às vezes após alguma sessão ou espontaneamente, por razões que não consigo alcançar. Antes a natação restituía-me a disposição por algumas horas, às vezes pelo dia inteiro, mas hoje só aumenta o cansaço. Se nado pela manhã, preciso dormir à tarde para me recuperar.
A política tem-me tirado muito a tranquilidade também. Estou só, tomei um rumo contrário a tudo em que acreditava antes, e essa mudança afastou-me de muita gente. Nunca tive muitos amigos, mas hoje mesmo os amigos que nunca tive têm uma razão a mais para afastar-se ou recusar aproximação. O que me incomoda é ter a certeza de estar certo. Ao menos relativamente, em relação às razões que levam a maioria das pessoas a ser de esquerda. Compreendi a fragilidade dessas razões, a experiência objetiva da humanidade no planeta comprova o equívoco das posições de esquerda, e tudo então parecia-me muito fácil e tranquilo e razoável. Bastaria, de posse dessa revelação, comunicá-la ao mundo e todos corrigiriam seus caminhos, abandonando a esquerda e tornando-se conservadores. Todos a que me refiro são as pessoas de boa índole que conheço, e que ainda são de esquerda. Mas foi uma ilusão. O que causei com minha guinada à direita, ao conservadorismo, foi estranhamento e decepção. E afastamento.
O discurso de Olavo de Carvalho é de uma clareza solar, mas nem isso parece afetar minimamente o aferramento das pessoas às ideias equivocadas que cultivam há anos. Ontem postei no Facebook um texto do Olavo, "A direita a serviço da esquerda". Um texto claro, como de costume, com uma argumentação precisa e cabal. Imaginei, com a melhor das intenções, promover uma reflexão por parte das pessoas de esquerda que marquei na postagem. E que algumas pudessem acordar diante de exibição tão eloquente da falácia, das impropriedades das teses da esquerda. Mas não. Marquei, contei hoje, 22 pessoas. Dessas, ao menos a metade nem era de esquerda. A postagem recebeu exatas oito curtidas. Nenhuma de gente de esquerda. A maior parte simplesmente ignorou-a. Os poucos comentários, como dizer que Olavo estaria "com ódio", fizeram desandar o sentido da minha iniciativa. Tentei responder equilibradamente, mas pesei um pouco a mão. Enfim, nada feito.
Noite entrada, silêncio. Águas Claras não dorme, mas também não incomoda. Os prédios cheios de tédio, de luzes poucas, de vozes raras. A noite entrada e caída. Daqui deste apartamento vê-se a uma distância de alguma centena de metros um morro de inclinação suave, e as casas subindo esse morro. Como será quando chove? As melhores casas, no alto do morro, suas águas devem descer sobre as outras, que as recebem e multiplicam com suas próprias águas até tudo se despejar sobre a via embaixo, onde os carros lhes passam por cima, inquietos.
Eu não queria estar morando aqui. Tenho saudade de Dourados. A casa em Dourados, a cidade calma, tranquila, lenta. O povo ainda preservando a sanidade mental, que em Brasília já foi inteiramente varrida.
Lembro as madrugadas em Dourados, o dia ainda não saído, prestes a sair, Ozzy animado, alegre, esperando-me, chamando-me ansioso para o passeio matinal. O vento ainda frio, a rua deserta, a noite se desfazendo lentamente em sombras de luz suaves, nossos passos, os de Ozzy mais inquietos e afoitos, compassando a solidão. De vez em quando, o latido de algum cão das casas próximas, certamente invejando a liberdade de que Ozzy já usufruía àquela hora da madrugada. E Ozzy sabia isso mesmo, e passava indiferente, às vezes respondendo com algum latido a algum cão, apenas para mostrar o quanto era indiferente à reclamação e à revolta de seus pares, presos e tristes.
As grades da minha janela sem grades não contêm nem libertam meus pensamentos
Os andares deste prédio alçaram-me a uma altura que é como estar no chão
Alimentado por sonhos que não me esperam, abro as mãos e liberto o pássaro imaginário
que nunca pousou em minha mãos
que nunca pousaria nas mãos de quem não tem sonhos nem moinhos a acordar
que habita o moinho triste que restou na fazenda onde as plantações se extinguiram
e que guardam a memória de tempos imprecisos
quando as crianças corriam em torno
e se escondiam por trás do moinho alegre,
de grandes pás vermelhas
Na casa ao longe, as portas de dia abertas, o movimento do trabalho e da vida que não se aquieta
O trabalho das mulheres, longos
O trabalho dos homens, longe
E o meu trabalho pouco e vagaroso, vagaroso porque pouco, pouco porque vagaroso,
a acompanhar o dia sempre pelas franjas de seu vestido amarelo
Mas as crianças voltaram a brincar
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