segunda-feira, 18 de julho de 2016

Estou morando na chácara do Toni. Desde o dia 10, segundo a Mara. Para mim, tinha vindo para cá dia 15, mas não importa. O fato é que estou aqui até hoje, 18 de julho, mais de um mês. O impulso deu-se após um estresse conjugal, mas isso já foi superado. Na verdade, de uma forma bem espontânea, simplesmente chegamos à conclusão, recíproca e espontaneamente, de que ainda gostamos um do outro.
Mas gostei de vir para cá. O clima em casa está mais leve. Percebo que estava cotidianamente deprimido, e isso deprimia o ar em torno. Aqui, ao menos, não deprimo a mais ninguém. Ao mesmo tempo, podendo dedicar-me mais à música, encontro eu próprio um remédio para a depressão. Estou tocando violão, algumas horas por dia, exercitando mesmo.
Outra ideia que tive ao vir para cá foi implantar aqui duas coisas, uma produção de galinha e ovos caipira e uma horta orgânica. Já entrei em contato com o pessoal da Secretaria de Agricultura do DF, vieram aqui, fiz uma espécie de inscrição cadastral e estou para tomar as próximas providências. Mas o fato é que está tudo parado, ainda. Tive um declínio de saúde na semana passada, do qual ainda não me restabeleci. Não sei a que atribuir mais essas baixas de energia, o cansaço crônico que às vezes me acomete. Esclerose múltipla? Só pode ser, não consigo imaginar outro motivo.
Encomendei vitaminas e, sobretudo, Ômega 3 dos EUA. Vou encomendar também vitaminas novas, as do complexo B. E passar a tomar da forma prescrita. Espero obter algum alento dessa forma.
Os meninos parecem bem. Achei-os mais alegres até, quando estive lá. Mais um motivo para estender minha estada por aqui...

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Há uma música deste tempo que não sinto como se fora música. Ruídos de eletrônica, harmonias precárias, melodias insípidas, o ritmo forte, marcado. Se toda música existe para exprimir estados de espírito, a reunião desses elementos com nome de música só pode traduzir estados de distúrbios da mente, de pensamentos ralos e sem elaboração, de colapso, quando não de alguma mania psicótica qualquer. E são a música deste tempo, à qual os jovens se entregam, por talvez ignorar o que é música de fato. A música verdadeira é a que envolve, balança, aquece o espírito, tomando-o pela mão para levá-lo a paragens longínquas, das quais retornará sempre um pouco mais rico, ou mais calmo, ou com a disposição renovada para a batalha cotidiana no plano físico.
A música deste tempo, de que falei mais acima, não inspira nem renova nada, apenas cansa, cansa, cansa.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Tenho sonhos marinheiros sem jamais ter vivido no mar
Sem nunca ter sequer morado perto de mar algum
Apenas esses sonhos marinheiros — vastos, azuis e luminosos
A casa à beira de um mar de cores que vão mudando à luz do sol, às nuvens do dia, ao entardecer e ao escurecer
Matizes de azuis perolados, de verdes transparentes a lilases e espumas
Ventos e brisas e mormaços, tudo quieto e marítimo, de uma forma que provavelmente nunca existiu,
senão no meu desejo de viver esse lugar de sonhos marinheiros, tudo longínquo e infinito




quinta-feira, 23 de junho de 2016

No sábado, 18, fui à sessão no Estrela Matutina. Lá, percebi que vir para cá não foi mesmo a melhor das atitudes que deveria ter tomado, e então reconsiderei que devo conversar com Mara, tentar resolver o assunto do Tiago, que tanto me incomoda. A formação dele, seu desenvolvimento saudável em termos psicológicos.
Mas no Estrela apenas uma funda decepção. Que núcleo triste! Fiquei impressionado com a sem graceza daquilo ali. Tudo soturno, sorumbático, a sessão chata, sem graça. As intervenções à altura da chatice do núcleo. É com certeza um dos núcleos mais fracos de toda a União.
Depois da sessão, violão com Lílson. É um compositor de mão cheia, mostrou uma música nova dele, excelente. Admiro muito o talento do Lílson, é um compositor bem melhor que eu, sem dúvida. Talvez eu seja mais inventivo, mais original harmonicamente, mas ele é mais inspirado, e faz músicas estruturalmente perfeitas, não consigo acrescentar nem tirar nada ali. Às vezes, dou alguma sugestão em termos harmônicos, aspecto em que ele é meio limitado, mas não passa disso. O cara é muito bom. Cheguei mesmo a pensar em retomar algum trabalho com ele. Acho que poderíamos fazer um trabalho interessante, juntando o material dele, que tem forte vocação popular, ao meu, que tem certa condição de angariar algum prestígio entre músicos, por causa da maior elaboração harmônica e melódica. Enfim, acho que daria uma banda excelente, com as duas dimensões em que se sustenta a música popular de qualidade — a riqueza inventiva e a inspiração melódica. Mas depois pensei que Lílson não tem a menor vontade de voltar a fazer algum trabalho comigo, deixa pra lá...
Pensando também em falar com Petrônio, ver se ele topa vir ensaiar aqui. É meio longe. E não sei como é a rotina dele com o filho. Já pensou? Uma banda comigo, Petrônio, Lílson? Eu na guitarra/violão base, Petrônio na guitarra solo, Lílson no baixo. Ele não iria querer, só se vê na guitarra, mas acho que seria fácil convencê-lo, estou tocando muito melhor que ele, tenho bem mais condições de assumir a guitarra base. Sem falar que, estive pensando, grandes bandas de rock que conheço costumam ter um grande compositor no contrabaixo. Beatles, Pink Floyd... Pensando bem, só estou lembrando essas duas mesmo.
Saudade dos meus filhos... muita! Michael, Rafael, Tiago. Escrevendo o nome deles pra ver se alivia um pouco a saudade...

Estou morando na chácara. Vim para cá após uma situação em casa, familiar, envolvendo meu amado filho Tiago. Sensação de estar assistindo a um enorme equívoco em sua formação, causado inteiramente pela mãe dele.
Mas agora estou considerando que sair de lá, abandonar minha família, não foi a melhor das atitudes. Não posso deixar o barco correr solto, Mara levando-o ao sabor de sua insensatez. Preciso reagir, e estou apenas aguardando o momento oportuno para fazê-lo de forma a dar a ela a oportunidade de reconhecer seu erro e corrigir seu rumo. Vamos ver...
Por aqui, muita solidão. Pensamento de iniciar uma criação de galinha caipira e uma horta orgânica. Hoje pesquisei bastante o assunto da galinha, que parece ser bem mais complexo e trabalhoso do que eu imaginava. E de custo relativamente expressivo, embora com possibilidade de retorno real e até rápido.
Por sob o manto dessa decisão, a vinda para cá, abriga-se, é forçoso reconhecer, os velhos sonhos de dedicação à música, à técnica, à composição. Que, aqui, estão relegados à mesma condição de sempre, ou seja, adiamentos, indecisões, desesperanças e abandonos finalmente.
Estou em um estado de sensibilidade bastante incomum, não sei se positivo ou não, mas extremo, em todo caso. Só querendo ficar mesmo só. Sem conseguir engatar conversa com ninguém, sem vontade de nada, sem plano nenhum na verdade. Galinha caipira, horta orgânica... Vamos ver.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Águas pouco claras

Estou triste. Na verdade, desesperançado. Não absolutamente, mas com relação a mim mesmo. Muitas idas e vindas, vindas e idas, e paradas e retomadas, e novas idas sem vindas, ou vindas sem idas, enfim, o desconexo ir e vir de quem não sabe aonde ir ou de onde vir fizeram-me cansado. E triste. Desde o ano passado, minha saúde declinou grandemente. O cansaço tornou-se praticamente contínuo, cedendo às vezes após alguma sessão ou espontaneamente, por razões que não consigo alcançar. Antes a natação restituía-me a disposição por algumas horas, às vezes pelo dia inteiro, mas hoje só aumenta o cansaço. Se nado pela manhã, preciso dormir à tarde para me recuperar. A política tem-me tirado muito a tranquilidade também. Estou só, tomei um rumo contrário a tudo em que acreditava antes, e essa mudança afastou-me de muita gente. Nunca tive muitos amigos, mas hoje mesmo os amigos que nunca tive têm uma razão a mais para afastar-se ou recusar aproximação. O que me incomoda é ter a certeza de estar certo. Ao menos relativamente, em relação às razões que levam a maioria das pessoas a ser de esquerda. Compreendi a fragilidade dessas razões, a experiência objetiva da humanidade no planeta comprova o equívoco das posições de esquerda, e tudo então parecia-me muito fácil e tranquilo e razoável. Bastaria, de posse dessa revelação, comunicá-la ao mundo e todos corrigiriam seus caminhos, abandonando a esquerda e tornando-se conservadores. Todos a que me refiro são as pessoas de boa índole que conheço, e que ainda são de esquerda. Mas foi uma ilusão. O que causei com minha guinada à direita, ao conservadorismo, foi estranhamento e decepção. E afastamento. O discurso de Olavo de Carvalho é de uma clareza solar, mas nem isso parece afetar minimamente o aferramento das pessoas às ideias equivocadas que cultivam há anos. Ontem postei no Facebook um texto do Olavo, "A direita a serviço da esquerda". Um texto claro, como de costume, com uma argumentação precisa e cabal. Imaginei, com a melhor das intenções, promover uma reflexão por parte das pessoas de esquerda que marquei na postagem. E que algumas pudessem acordar diante de exibição tão eloquente da falácia, das impropriedades das teses da esquerda. Mas não. Marquei, contei hoje, 22 pessoas. Dessas, ao menos a metade nem era de esquerda. A postagem recebeu exatas oito curtidas. Nenhuma de gente de esquerda. A maior parte simplesmente ignorou-a. Os poucos comentários, como dizer que Olavo estaria "com ódio", fizeram desandar o sentido da minha iniciativa. Tentei responder equilibradamente, mas pesei um pouco a mão. Enfim, nada feito. Noite entrada, silêncio. Águas Claras não dorme, mas também não incomoda. Os prédios cheios de tédio, de luzes poucas, de vozes raras. A noite entrada e caída. Daqui deste apartamento vê-se a uma distância de alguma centena de metros um morro de inclinação suave, e as casas subindo esse morro. Como será quando chove? As melhores casas, no alto do morro, suas águas devem descer sobre as outras, que as recebem e multiplicam com suas próprias águas até tudo se despejar sobre a via embaixo, onde os carros lhes passam por cima, inquietos. Eu não queria estar morando aqui. Tenho saudade de Dourados. A casa em Dourados, a cidade calma, tranquila, lenta. O povo ainda preservando a sanidade mental, que em Brasília já foi inteiramente varrida. Lembro as madrugadas em Dourados, o dia ainda não saído, prestes a sair, Ozzy animado, alegre, esperando-me, chamando-me ansioso para o passeio matinal. O vento ainda frio, a rua deserta, a noite se desfazendo lentamente em sombras de luz suaves, nossos passos, os de Ozzy mais inquietos e afoitos, compassando a solidão. De vez em quando, o latido de algum cão das casas próximas, certamente invejando a liberdade de que Ozzy já usufruía àquela hora da madrugada. E Ozzy sabia isso mesmo, e passava indiferente, às vezes respondendo com algum latido a algum cão, apenas para mostrar o quanto era indiferente à reclamação e à revolta de seus pares, presos e tristes.

As grades da minha janela sem grades não contêm nem libertam meus pensamentos
Os andares deste prédio alçaram-me a uma altura que é como estar no chão
Alimentado por sonhos que não me esperam, abro as mãos e liberto o pássaro imaginário
que nunca pousou em minha mãos
que nunca pousaria nas mãos de quem não tem sonhos nem moinhos a acordar
que habita o moinho triste que restou na fazenda onde as plantações se extinguiram
e que guardam a memória de tempos imprecisos
quando as crianças corriam em torno e se escondiam por trás do moinho alegre,
de grandes pás vermelhas
Na casa ao longe, as portas de dia abertas, o movimento do trabalho e da vida que não se aquieta
O trabalho das mulheres, longos
O trabalho dos homens, longe
E o meu trabalho pouco e vagaroso, vagaroso porque pouco, pouco porque vagaroso,
a acompanhar o dia sempre pelas franjas de seu vestido amarelo
Mas as crianças voltaram a brincar